Paraisópolis | Geografia + Direito

Fruto de um ano de trabalho extensionista na Comunidade de Paraisópolis / SP, a produção vivida se torna escrita e por aqui vai sendo documentada.

domingo, 30 de outubro de 2011

Reunião na Comunidade

Hoje tivemos mais uma reunião na Comunidade com os moradores da quadra que estão no Processo de Usucapião Coletivo.
Por mais que eu não tenha ainda explicado o que é o processo e o que o Núcleo de Direito à Cidade faz lá, tenho que escrever sobre a reunião de hoje.

Finalmente chegamos ao período que temos que bater de casa em casa para atualizar a documentação de todos os proprietários das casas que estão na quadra e inseridos no processo.
Atualizar cadastro, de longe, é a coisa mais trabalhosa que fazemos na comunidade.
Fazemos isso uma vez por ano e em um ano casas subiram, esticaram, dobraram, cresceram. 
Famílias aparecem, outras vão embora, filhos nascem, filhos casam, filhos se mudam, o marido falece, a mulher falece, o avô e a avó passam a casa para os netos.
Tudo isso é minuciosamente documentado.
Ou tentamos fazer. Por nós.
A maior dificuldade que temos é encontrar as pessoas em casa. Para isso estabelecemos a rotina de 3 a 4 finais de semana passando de casa em casa com o envelope que contem todo o histórico da casa e da família e atualizamos todas as mudanças da vida dessas pessoas.
Cópias de documentos, preencher as n-fichas, conversas, esclarecimentos, café, refrigerante, água, bolo... tudo isso faz parte e tudo isso demora, cansa e nos deixa satisfeitos!
A quadra é dividida em três processos, para facilitar o andamento da decisão judicial. E em outro momento explico sobre isso também.
Assim, duplas são revezadas durante os finais de semana para passar nas casas de um setor e atualizam os documentos do cadastro.
Cada dia passamos, em média, por 4 a 5 casas. Isso demora 4 a 5 horas. 1hora por casa.
Depois disso o trabalho ainda continua. Tabelamos todas as informações e comparamos com os dados anteriores. Com as fichas todas preenchidas, conseguimos identificar a diferença no poder aquisitivo da família, o crescimento vegetativo e o aumento da área construída.
Esse trabalho todo ainda não supre todas as informações que queríamos ter ou poderíamos conseguir.
A mobilidade das pessoas da quadra, a mudança contínua de casa, a venda, a troca e o aluguel são coisas que a gente perde, num ritmo frenético de transações informais, ou normatizadas pela própria comunidade.
Essa reunião foi mais um marco.
Pela segunda vez, vi a sala da Escola Estadual Homero Santos Forte lotada. 40 pessoas foram para a reunião com pauta única: Cadastro.
Lá, afixamos na lousa, em tamanho A3, os formulários de cadastro, fizemos jogos de todas as fichas e entregamos para duplas de moradores - não imaginamos que viriam tantas pessoas!
Uma por uma, as fichas foram explicadas, de maneira simples, falamos da importância de ter tudo aquilo preenchido e atualizado. Falamos da necessidade de estarem sempre na reunião. Da importância em não desistir do processo.
Falamos que estamos no caminho certo, a pesar da demora na decisão do juiz e no fim de um dos processos que começou em 2003 - o mais antigo. Falamos que assessoria jurídica é gratuita. E como não ganhamos absolutamente nada por ter o processo com eles.
Ficou claro que o processo é dos moradores, e que eles precisam dominar o mecanismo de exigir seus direitos, do sigilo dos seus dados. Da importância do advogado orientador.

Saí de lá feliz como há muito não ficava. 
A comunidade sempre me deixa feliz. A presença daquelas pessoas é um dos motivos para continuarmos ali, a relação e o estreitamento dos laços com aquelas pessoas é o que sempre nos faz voltar no mês seguinte.

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