Hoje tivemos mais uma reunião na Comunidade com os moradores da quadra que estão no Processo de Usucapião Coletivo.
Por mais que eu não tenha ainda explicado o que é o processo e o que o Núcleo de Direito à Cidade faz lá, tenho que escrever sobre a reunião de hoje.
Finalmente chegamos ao período que temos que bater de casa em casa para atualizar a documentação de todos os proprietários das casas que estão na quadra e inseridos no processo.
Atualizar cadastro, de longe, é a coisa mais trabalhosa que fazemos na comunidade.
Fazemos isso uma vez por ano e em um ano casas subiram, esticaram, dobraram, cresceram.
Famílias aparecem, outras vão embora, filhos nascem, filhos casam, filhos se mudam, o marido falece, a mulher falece, o avô e a avó passam a casa para os netos.
Tudo isso é minuciosamente documentado.
Ou tentamos fazer. Por nós.
A maior dificuldade que temos é encontrar as pessoas em casa. Para isso estabelecemos a rotina de 3 a 4 finais de semana passando de casa em casa com o envelope que contem todo o histórico da casa e da família e atualizamos todas as mudanças da vida dessas pessoas.
Cópias de documentos, preencher as n-fichas, conversas, esclarecimentos, café, refrigerante, água, bolo... tudo isso faz parte e tudo isso demora, cansa e nos deixa satisfeitos!
A quadra é dividida em três processos, para facilitar o andamento da decisão judicial. E em outro momento explico sobre isso também.
Assim, duplas são revezadas durante os finais de semana para passar nas casas de um setor e atualizam os documentos do cadastro.
Cada dia passamos, em média, por 4 a 5 casas. Isso demora 4 a 5 horas. 1hora por casa.
Depois disso o trabalho ainda continua. Tabelamos todas as informações e comparamos com os dados anteriores. Com as fichas todas preenchidas, conseguimos identificar a diferença no poder aquisitivo da família, o crescimento vegetativo e o aumento da área construída.
Esse trabalho todo ainda não supre todas as informações que queríamos ter ou poderíamos conseguir.
A mobilidade das pessoas da quadra, a mudança contínua de casa, a venda, a troca e o aluguel são coisas que a gente perde, num ritmo frenético de transações informais, ou normatizadas pela própria comunidade.
Essa reunião foi mais um marco.
Pela segunda vez, vi a sala da Escola Estadual Homero Santos Forte lotada. 40 pessoas foram para a reunião com pauta única: Cadastro.
Lá, afixamos na lousa, em tamanho A3, os formulários de cadastro, fizemos jogos de todas as fichas e entregamos para duplas de moradores - não imaginamos que viriam tantas pessoas!
Uma por uma, as fichas foram explicadas, de maneira simples, falamos da importância de ter tudo aquilo preenchido e atualizado. Falamos da necessidade de estarem sempre na reunião. Da importância em não desistir do processo.
Falamos que estamos no caminho certo, a pesar da demora na decisão do juiz e no fim de um dos processos que começou em 2003 - o mais antigo. Falamos que assessoria jurídica é gratuita. E como não ganhamos absolutamente nada por ter o processo com eles.
Ficou claro que o processo é dos moradores, e que eles precisam dominar o mecanismo de exigir seus direitos, do sigilo dos seus dados. Da importância do advogado orientador.
Saí de lá feliz como há muito não ficava.
A comunidade sempre me deixa feliz. A presença daquelas pessoas é um dos motivos para continuarmos ali, a relação e o estreitamento dos laços com aquelas pessoas é o que sempre nos faz voltar no mês seguinte.
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