Quando a prefeitura de São Paulo resolveu reorganizar a cidade com um novo Plano Diretor Estratégico - PDE - aprovado em 2002 - Lei 13430/02 - aliado aos Planos Regionais Estratégicos - Lei 13885/04 - a sociedade não sabia muito o que esperar, e quem dirá os governantes e autoridades envolvidas.
Hoje, podemos ter clareza do que ele significou, mas à época, ele se mostrava como um dos instrumentos mais avançados na política urbana de uma metrópole com a nossa, principalmente porque estava subordinada ao Estatuto da Cidade - Lei 10257/01 - instrumento diferentemente avançado que norteia a consolidação do PDE e cria dispositivos para a regularização fundiária, a efetivação de instrumentos públicos como saneamento básico, escolas e hospitais, além de garantir a função social da propriedade, quer dizer, o cumprimento da função da moradia para todos com a garantia de infra estrutura.
Todo esse conjunto de lei é o que respalda São Paulo no crescimento visto ao longo dos últimos anos.
Não é difícil de reparar que a possibilidade de moradia, água encanada, esgoto, escola e hospitais, não é para todos. E ainda, não está difícil de ver em como alguns instrumentos previstos no Estatuto da Cidade vem sendo desconsiderado sistematicamente, haja visto os desalojamentos por conta das obras para a Copa do Mundo e Olimpíadas - tão bem tratado pela Professora Raquel Rolnik.
O PDE foi lançado no governo da Marta Suplicy quando estava na prefeitura da cidade, e foi um chacoalhão na política urbana da cidade. Zoneou sistematicamente a cidade de acordo com suas formas de uso, legitimou juridicamente o que estava colocado apenas nos viveres das moradores dessa grande metrópole. Deixou claro que áreas são para ricos e quais áreas são para os pobres.
Além disso, clareou o que estava obscuro: a especulação imobiliária encontrava nos dispositivos urbanístico-jurídico forma para se consolidar.
Assim, áreas como Paraisópolis, vulneráveis do ponto de vista ambiental, econômico, político e social, encontrou a regulação do seu território por meio de um Plano Geral para a cidade. A partir daí, está permitida a intervenção na comunidade, a presença de instrumentos coletivos, o transporte coletivo, as obras de pavimentação, a construção de moradias de interesse social.
A qual custo? a intervenção no campinho de futebol, a construção de praças, finalmente o trajeto da linha ouro do metro-monotrilho, a regularização das calçadas para mudas de árvores, o desenfreado fetiche por predinhos seriados coloridos, com conta de gás alta, sala para quatro pessoas, a falta de um local comum para o churrasco e o samba de sábado, a diferença entre aqueles que estão no predinho e o vizinho em sua casa.
Se isso é um avanço? Para mim, e pelo que tenho visto pra comunidade, não. Cada vez mais os moradores do CDHU não aguentam as altas contas de gás, que somadas à água e aos gastos com mercado e transporte, engolem o final de semana de churrasco e samba.
Cada vez mais, mais e mais moradores querem vender seus apertamentos para ter uma casinha, mesmo que longe, dentro do Complexo, talvez no Jardim Colombo.
Cada vez mais a troca de apartamento por casas vem acontecendo e cada vez mais procuram o Núcleo para achar algum dispositivo jurídico que conforme legalmente a venda ou o aluguel do predinho a terceiros.
Cada vez mais, a diferença entre os do predinho e os do barraco se conforma nas formas, mas não na vivência. Todos são da comunidade, todos trabalham, tem filhos, problemas familiares e vão à feira de sábado, mas alguns tem que subir ao seu apartamento todos os dias, outros tem o seu churrasco de sábado na varanda do vizinho no barraco.
É isso que um PDE feito às custas de um equipe técnica que é somente técnica cria. No papel e na forma um verdadeiro frankenstein colocado, como um laboratório, na prática, na vida da comunidade.
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Como é a proposta, a experiência vivida vai ganhando forma e vai sendo documentada.
Tais depoimentos são recorrentes nas reunião do Núcleo de Direito à Cidade, nas reuniões que fazemos com os moradores da nossa quadra. Vira e mexe o "advogados" - companheiros da SanFran - são solicitados ao final da reunião sobre as possibilidades de construir um puxadinho, trocar ou vender o apartamento no predinho por uma casa ou ainda construir mais um andar e colocar no nome do filho e depois alugar.